enso, com os olhos duros como
sílex,
- A maegi - cuspiu. - Não farei isso.
- Fará - disse Dany -, senão, quando Drogo acordar, saberá
por que razão me desafiou.
Furioso, Qotho virou o garanhão e afastou-se a galope... mas
Dany sabia que regressaria com Mirri Maz Duur, por mais
que não gostasse disso. Os escravos erigiram a tenda de Khal
Drogo sob um afloramento recortado de rocha negra cuja
sombra providenciava algum alívio do calor do sol da tarde.
Mesmo assim, estava sufocante sob a sedareia quando Irri e
Doreah ajudaram Dany a amparar Drogo até o interior da
tenda. Espessos tapetes ornamentados tinham sido colocados
sobre o chão, e almofadas estavam espalhadas pelos cantos.
Eroeh, a jovem tímida que Dany salvara fora das muralhas
de barro dos Homens-Ovelhas, acendeu um braseiro. Estende-
ram Drogo em uma esteira trançada.
- Não - resmungou ele no Idioma Comum. - Não, não - foi
tudo o que disse, tudo o que parecia capaz de dizer.
Doreah desprendeu seu cinto de medalhões e o despiu do
colete e dos calções, enquanto Jhi-qui ajoelhava junto a seus
pés para desatar os nós das sandálias de montar. Irri quis
deixar as abas da tenda abertas para a aragem poder entrar,
mas Dany a proibiu. Não queria que ninguém visse Drogo
assim, em delírio e fraco. Quando o seu khas chegou,
manteve-os lá fora, de guarda.
- Não deixe entrar ninguém sem a minha licença - disse a
Jhogo. - Ninguém. Eroeh fitou Drogo, temerosa.
- Ele morre - sussurrou.
Dany a esbofeteou.
- O khal não pode morrer. Ele é o pai do garanhão que monta
o mundo. Seu cabelo nunca foi cortado. Ainda usa as
campainhas que o pai lhe deu.
- Khaleesi - disse Jhiqui -, ele caiu do cavalo.
Tremendo, com os olhos subitamente cheios de lágrimas,
Dany virou o rosto para elas. Ele caiu do cavalo! Tinha
acontecido, ela tinha visto, e os companheiros de sangue, e
sem dúvida que as aias e os homens de seu khas também.
Quantos mais? Não podia manter segredo, e Dany sabia o que
isso queria dizer. Um khal que não conseguia montar não
conseguia governar, e Drogo caíra do cavalo.
- Temos de lhe dar banho - disse ela teimosamente. Não podia
permitir-se o desespero. -Irri, manda que tragam a banheira
imediatamente. Doreah, Eroeh, encontrem água, água fria,
ele está tão quente - era uma fogueira em pele humana.
As escravas instalaram a pesada banheira de cobre no canto
da tenda. Quando Doreah trouxe o primeiro jarro de água,
Dany umedeceu um pano de seda e o pousou na testa de
Drogo, sobre a pele que queimava. Os olhos dele olharam
para ela, mas não a viram. Quando a boca se abriu, não
deixou escapar nenhuma palavra, só um gemido.
- Onde está Mirri Maz Duur? - ela exigiu saber, com a
paciência encurtada pelo medo.
- Qotho há de encontrá-la - disse Irri.
As aias encheram a banheira com água tépida que fedia a
enxofre, purificando-a com jarros de óleo amargo e punhados
de folhas esmagadas de menta. Enquanto o banho era
preparado, Dany ajoelhou-se desajeitadamente ao lado do
senhor seu marido, a barriga inchada com o filho de ambos lá
dentro. Desfez-lhe a trança com dedos ansiosos, como fizera
na noite em que ele a possuíra pela primeira vez, sob as
estrelas. Pôs de lado as campainhas com cuidado, uma a uma.
Ele iria querê-las de novo quando estivesse bem, disse Dany a
si mesma.
Um sopro de ar entrou na tenda quando Aggo enfiou a cabeça
através da seda.
- Khaleesi - disse -, o ândalo chegou e pede licença para
entrar. "O ândalo" era como os dothrakis chamavam Sor
Jorah.
- Sim - disse ela, erguendo-se desajeitadamente -, mande-o
entrar - confiava no cavaleiro. Ele saberia o que fazer se mais
ninguém soubesse.
Sor Jorah Mormont entrou, baixando a cabeça sob a aba da
entrada da tenda, e esperou um momento para que os olhos se
ajustassem à escuridão. No feroz calor do sul, usava calças
largas de sedareia de várias cores e sandálias abertas de
montar atadas ao joelho. A bainha de sua espada pendia de
um cinto de pelo de cavalo trançado. Sob um colete
branqueado, o peito estava nu, com a pele vermelha pelo sol.
- Fala-se ao ouvido por todo o khalasar - disse ele. - Dizem
que Khal Drogo caiu do cavalo.
- Ajude-o - suplicou Dany. - Pelo amor que diz ter por mim,
ajude-o agora.
O cavaleiro ajoelhou a seu lado. Olhou para Drogo com
atenção durante muito tempo e depois virou os olhos para
Dany,
- Mande as aias embora.
Sem palavras, com a garganta apertada pelo medo, Dany fez
um gesto. Irri empurrou as outras para fora da tenda.
Quando ficaram a sós, Sor Jorah puxou o punhal.
Habilmente, com uma delicadeza surpreendente para um
homem tão grande, começou a raspar do peito de Drogo as
folhas negras e a lama seca azul. O emplastro tornara-se tão
duro como os muros de barro dos Homens-Ovelhas, e, tal
como esses muros, rachava facilmente. Sor Jorah quebrou a
lama seca com a faca, afastou os pedaços da pele, puxou as
folhas uma a uma. Um cheiro doce e desagradável elevou-se
da ferida, tão forte que quase a sufocou. As folhas estavam
cobertas de sangue e pus, e o peito de Drogo, negro e
cintilante de 